MOMENTO MÁGICO
NO PÉS NO CHÃO


Sábado, dia 30 de março de 2002, 10 horas da noite. No Espaço Cultural Pés no Chão, um pequeno público aguardava a performance anunciada. Naquele penúltimo dia da Mostra de Arte Contemporânea, as obras expostas apresentavam a serenidade do dever cumprido. Haviam tocado com seu encanto a todos os que passaram pela enorme porta vermelha que dá acesso ao espaço, desceram até o salão e circularam por entre as pinturas, as esculturas e as peças de cerâmica. Mais um dia e elas seriam encaminhadas aos seus proprietários. Estaria encerrada a mostra.

No aparelho de som, os primeiros acordes em pizzicati começaram a tocar sobre o ostinato ritmado da caixa-clara. Quatro compassos depois, a flauta se encarregava de fazer a primeira apresentação do longo tema. Outras 17 iriam se suceder, com diversos instrumentos e em variadas combinações de timbre, culminando com uma inquietante modulação, a única da peça, para mi bemol maior, a poucos compassos do final. No corredor, as bailarinas Cristina, Gabriela e Marília começavam sua performance. Sobre o Boléro, disse Ravel certa vez: "Escrevi uma única obra prima, porém, ela não contém música". Nossas três bailarinas chamaram de performance sua dança de vanguarda. Nunca viram a coreografia de Maurice Béjart. Não houve nenhuma influência. Quem achava, como eu, que a versão de Béjart era definitiva, surpreendeu-se com a solução a que chegaram essas meninas.

O público presente assistiu atentamente a performance. Acompanhou o grupo quando este desceu para o salão e foi formar, com sua dança, verdadeiras esculturas vivas entre as obras de arte. Tudo se integrava: música, dança, cores, formas, além do olhar reverente e acolhedor das pessoas presentes. No rosto das meninas, percebia-se uma entrega total ao personagem que a performance sugeria. No ar, sentíamos a intensa magia daquele momento especial. As musas da dança e da música com certeza estavam presentes naquela noite, naquele espaço.

Ida Rubinstein foi uma bailarina famosa do início do século. Em 1928, procurou Ravel e lhe pediu que compusesse um ballet de inspiração espanhola. Sua idéia original era orquestrar alguns trechos de Ibéria, uma pitoresca suite do compositor espanhol Isaac Albéniz. Seis anos atrás, a orquestração de Ravel para a Suite "Quadros de uma Exposição" de Mussorgsky tivera um estrondoso sucesso, consagrando-o como um dos mais criativos mestres da composição orquestral. As musas da música, entretanto, estavam de plantão. Antes de morrer, Isaac Albéniz havia encarregado seu pupilo Ferdinand Enrique Arbos de orquestrar a suite. Diante disto, Ravel resolveu compor uma obra inteiramente sua. Involuntariamente, Ferdinand deu uma enorme contribuição à música do século XX. A primeira notícia que temos do surgimento do Boléro é uma carta que Ravel escreveu para o compositor espanhol Joaquín Nin. Nela, disse sucintamente: "Não tem forma; não tem modulação, ou quase nenhuma, apenas um tema, um ritmo, orquestração".

A orquestração do Boléro é uma fantástica exibição de talento, domínio de ofício e ousadia. Ravel utiliza em sua partitura uma combinação inusitada de instrumentos. O tema é tocado, entre outros, por um clarinete em mi-bemol, um oboé d'amore, um saxofone soprano e um trombone. Este último, teve uma importância fundamental para a obra. Ravel era amigo de Léo Vauchant, um trombonista famoso por improvisar solos incríveis com notas bastante agudas para o trombone. A ele, Ravel mostrou uma primeira versão do tema, escrito em ré maior. Léo protestou, pois achou o solo muito agudo. Pediu a Ravel que o transpusesse para um tom abaixo. Músicos do mundo inteiro agradecem a Léo Vauchant a versão final da obra em dó maior, que é certamente mais fácil de tocar do que a em ré maior.

A arte renasce e se fortalece sempre que ocorre um encontro. No Espaço Cultural Pés no Chão, Cristina, Gabriela e Marília incorporaram as artes plásticas à sua performance. Seus corpos se transformaram em esculturas, os colants pintados fizeram contraponto às cores dos quadros e os seus movimentos suaves e delicados revelaram que as fronteiras entre as artes haviam se dissolvido. Quem esteve presente, teve o privilégio de vivenciar um momento mágico.


 

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